Alfredo HoringArtigos

Artigo – Retrospectiva, Economia Brasileira em 2021, por Alfredo Horing

Destaque
  • Alfredo Horing, natural de Nova Ramada, é economista, especialista em Plano Diretor e possui MBA em Gerenciamento de Projetos.

A esperada retomada pós-pandemia veio aos trancos e barrancos, e a inflação, que não estava nos planos, dominou a vida econômica dos brasileiros.

Entre idas e vindas de programas de auxílio, crises institucionais, tentativas de mudanças nas regras para as contas públicas e preços em disparada, o otimismo com a recuperação pós-crise da pandemia deu lugar à tensão, e o que de fato aconteceu.

Assim, quando 2021 começou, depois de um 2020 de crise – uma vez que a pandemia já dava mostras de que se arrastaria ainda ao longo de vários meses, prejudicando a retomada dos negócios.

Notícias ruins para os quase 14 milhões de brasileiros que viraram o ano desempregados, e com baixas perspectivas de melhora. Com renda já reduzida. 

Um pequeno alívio para as famílias mais pobres veio a partir de abril, quando o Auxílio Emergencial voltou. Veio mais magro, no entanto, e para bem menos pessoas. Mas veio. E em novembro,  acabou de vez, deixando pelo menos 22 milhões sem qualquer tipo de ajuda.  

No mesmo mês, e depois de 18 anos, também foi extinto o Bolsa Família, substituído pelo Auxílio Brasil, que prometia pagar pelo menos R$ 400 a cada beneficiário, e aumentar o número de famílias atendidas a 17 milhões. Criado às pressas e sem fonte de custeio.

E se no bolso dos brasileiros o ano foi pior do que o esperado, no mercado financeiro não foi muito melhor, com o dólar disparado e a bolsa amargando perdas.

Parte considerável dessa piora pôde ser creditada diretamente na conta da crise institucional:  em agosto, ameaças reiteradas às eleições e aos demais poderes elevaram a percepção de risco dos investidores em relação ao país – e as incertezas afugentaram investimentos, os dólares e o crescimento.

Com o ano se aproximando do final, a economia segue na corda bamba: as contas públicas apresentaram melhora, o PIB deverá mostrar crescimento, e os serviços apontam para recuperação. Mas o brasileiro, lá fora, segue desempregado, com fome e poucas perspectivas.

As vendas do comércio chegam ao final de 2021 com alta, no quarto ano seguido de crescimento – mas ainda sem recuperar as perdas de do ano anterior.

O desempenho, no entanto, foi bastante irregular ao longo do ano, prejudicado em parte pela falta de confiança na economia, em parte pela falta de insumos, e em parte pela disparada da inflação, que corroeu o poder de compra dos brasileiros e os resultados dos varejistas.

Se, ao final de 2020, a projeção era de uma alta de 3,9%, um ano depois esse crescimento decepcionou: os últimos dados disponíveis, até outubro, mostravam alta de 2,6% em 12 meses.

Depois de um tombo de 8% em 2020 do setor de serviços, marcando o quarto ano seguido de perdas, a reabertura dos negócios prenunciavam um ano de retomada, responsáveis pela maior parte da economia brasileira. Cautelosamente otimista, a CNC previa uma alta de 3,7% este ano.

E, pelo menos até o terceiro trimestre, o setor não decepcionou: favorecidos pelo avanço da vacinação e maior mobilidade da população, os serviços foram o principal destaque de recuperação da economia. Até setembro, o setor estava 3,7% acima do patamar pré-pandemia, acumulando alta de 6,8% em 12 meses.

A inflação persistente, o desemprego elevado e as dúvidas sobre a situação fiscal do país, no entanto, mantêm a incerteza quanto ao futuro. Para 2022, a tendência já se mostra de perda de força.

A paralisação da economia atingiu em cheio o emprego em 2020. Com isso, 2021 começou com mais de 14 milhões de brasileiros na fila do desemprego, e perspectivas ruins – o FMI projetava que a taxa de desemprego, então em 14,2%, seguiria alta.

Ainda que lentamente, no entanto, essa taxa começou a ceder a partir de maio, até chegar, em setembro, a 12,6%, com estimados 13,5 milhões de desempregados.

Quem saiu dessa fila, no entanto, não encontrou um cenário fácil. Com empregos de baixa qualidade, o rendimento médio do brasileiro caiu, acumulando perda de mais de 10% em um ano.

E quem conseguiu trabalho, em grande parte, não conseguiu exatamente um emprego: dos 9,5 milhões de postos criados em um ano, 3,4 milhões foram de trabalho por conta própria, atingindo um recorde histórico – deixando claro que o mercado de trabalho vai demorar a se recuperar, e mais ainda a recuperar a qualidade das vagas.

A alta do dólar já vinha assustando desde 2019, e bateu novos recordes em 2020. Mas, em 2021, as expectativas eram de um cenário mais estável, com a moeda recuando de volta ao patamar de R$ 5 ao final do ano.

Mas demorou pouco para ficar claro que seria difícil que esse cenário se concretizasse. Em março, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que trocaria a presidência da Petrobras após sucessivas altas no preço da gasolina, criando tensão nos mercados.

Dúvidas quanto à aprovação da PEC Emergencial, que abriria espaço para a nova rodada do Auxílio Emergencial elevaram essas tensões – e a anulação das condenações do ex-presidente Lula, que voltou a ser elegível, levaram a moeda para o patamar de R$ 5,80.

Ao longo dos meses seguintes, essa alta arrefeceu, e o dólar chegou – brevemente – a operar abaixo dos R$ 5, graças ao diferencial de juros entre o Brasil e os EUA.

Mas a escalada das tensões institucionais, e a expectativa de um ‘fim’ das políticas de estímulo dos EUA voltaram a pesar. E a estimativa, agora, é que o dólar encerre o ano mais a R$ 5,56.

A inflação 2020 fechou em 4,52% – a maior taxa desde 2016, mas ainda dentro da meta do Banco Central. O último boletim Focus daquele ano indicava um 2021 caminhando para um arrefecimento da alta de preços, com o IPCA (a inflação oficial) fechando o ano a 3,32%. Já para o IGP-M, chamado de ‘inflação do aluguel’, a estimativa era de uma alta de 4,58% este ano, porém medindo pelos últimos 12 meses, novembro fechou em 24,52%.

O que se viu foi uma inflação em disparada – mesmo com a população sem comprar, o que pressionaria os preços. A alta generalizada foi resultado de uma “tempestade perfeita”: uma combinação da alta do dólar, valorização global do petróleo, e seca, que levou a uma quebra de safras no campo e ao aumento dos preços de energia.

Em setembro, a inflação acumulada em 12 meses já alcançava a casa dos dois dígitos, e a alta de preços batia recordes não vistos desde o Plano Real.

O IGP-M, chamado de ‘inflação do aluguel’ por ser usado para calcular a maioria dos reajustes de locações residenciais, obrigou inquilinos à renegociação, depois de bater em espantosos quase 40% em meados do ano.

Mas o que mais chamou atenção ao longo do ano foram os preços dos combustíveis, que dispararam – e a fome, que voltou a bater à porta dos brasileiros, que viram a carne (e para muitos, todo o resto) sumir dos pratos.

Com poucos sinais de alívio, o IPCA caminha para encerrar o ano a 10,18%.

Quando 2021 começou, a taxa básica de juros brasileira era de 2% – o menor patamar da história. Com a recuperação da economia ainda a passos lentos, fazia sentido que o dinheiro estivesse ‘barato’, para incentivar investimentos e consumo.

Uma elevação ao longo do ano já era esperada, porque a inflação começava a bater à porta com mais força. Mas, assim que a escalada da Selic começou, em março, o Banco Central já surpreendeu, elevando a taxa acima do esperado.

A inflação, no entanto, não deu trégua – e, depois da primeira alta, vieram outras seis, levando a Selic a 9,25%, de volta ao maior patamar desde meados de 2017.

Se em 2020 as contas públicas sofreram um rombo histórico de mais de R$ 700 bilhões, as perspectivas para 2021 eram melhores – mas nem tanto. Já à espera de um resultado ruim, a meta para o ano era de um déficit de US$ 250,89 bilhões.

Nas contas do governo federal, uma inflação superior à taxa de juros faz com que o resultado das contas seja beneficiado. Já para os estados, a inflação faz aumentar principalmente a arrecadação do ICMS: mesmo com o percentual de imposto permanecendo igual, ao subirem os preços, sobe o valor arrecadado.

Em 2020, a bolsa brasileira foi do céu ao chão, com a expectativa de recuperação econômica a caminho, juros baixos e dólares sobrando lá fora, o mercado esperava um ano de ganhos na bolsa aqui dentro, com o Ibovespa chegando aos 130 mil pontos, ou mais, um uma alta de cerca de 10%.

O mercado financeiro até ‘ignorou’ em parte a crise econômica, e chegou aos almejados 130 mil pontos em meados do ano. Mas, daí em diante, o sentido geral da bolsa foi mesmo para baixo.

Conforme as sucessivas altas dos juros foram tornando a bolsa menos atrativa, e os Estados Unidos indicavam o início do ‘enxugamento’ dos dólares do mercado, o ímpeto dos investidores foi perdendo força, na mesma medida em que o otimismo com o crescimento da economia também se esvaía, e diversas empresas desistiam de abrir capital.

Ao se aproximar o final do ano, os ganhos parecem longínquos, e a recuperação ficou para 2022: o Ibovespa roda, agora, abaixo dos 110 mil pontos.

O último boletim Focus (relatório produzido pelo Banco Central que compila estimativas de analistas de bancos) de 2020 mostrava que a economia brasileira deveria crescer 3,4% este ano, na maior alta desde 2011 – e recuperando parte do tombo de 4,1% sofrido no ano anterior, quando a atividade foi duramente afetada pela pandemia.

A recuperação já vinha desde o segundo semestre de 2020. E o primeiro trimestre de 2021 não fugiu ao script, e até surpreendeu, com alta de 1,2% e o retorno do PIB ao patamar pré-pandemia.

Em meados do ano, as estimativas para o ano fechado já havia sido revisadas para cima, e passavam dos 5%, acreditando que as regras mais frouxas para controle da pandemia contribuiriam para a aceleração da economia.

Mas a quebra de safras e uma falta global de insumos, além de alta das matérias-primas, começou a pesar já no segundo trimestre. Aliada à piora na confiança de grande parte dos setores, esse otimismo foi perdendo força.

Os dados dos trimestres seguintes mostraram que a recuperação não seria assim tão fácil: com duas contrações seguidas, o Brasil entrou em recessão técnica, sob forte influência da agropecuária que segurou os índices e podendo chegar ao final do ano com desempenho melhor do que o esperado lá atrás: com uma alta de mais de 4,5%.

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo
Ajuricaba.com
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.