Artigo – Jean Bertollo: Quando podemos usar o sofrimento pra melhorar?

Coloquei um “quando” no titulo, pois está claro que podemos usar o sofrimento a nosso favor. Sofrer pode ser uma coisa boa! A grande diferença entre o sofrimento que nos desenvolve e o sofrimento que nos inibe é a forma como lidamos com ele, o seu significado, e, em alguns casos, sua intensidade.
Desde a filosofia já se fala no poder que o sofrimento tem de fazer o indivíduo se desenvolver. Agora, já com a ciência, temos muito mais convicção para afirmar: não tenha medo do sofrimento, mas saiba usá-lo a seu favor. Se analisarmos do ponto de vista racional, sofrer é inevitável: fatalmente dificuldades nos acometem, e sobre algumas não temos controle. A sabedoria e a maturidade emocional, retratadas já em estudos psicológicos, mostram que os mais velhos sofrem menos e são emocionalmente mais estáveis.
Ou seja, a vida ensina que há coisas que não podem ser mudadas, e acabamos aprendendo identificar com o tempo quais são elas. 18 Se você é adolescente, sabe como é achar que o mundo não tem mais sentido por que você perdeu alguém ou alguma coisa. Isso é uma coisa característica dessa fase, pois nela estamos aprendendo a regular nossas emoções.
Gastar tempo tentando mudar coisas que estão fora da nossa esfera de controle parece uma ideia absurda, mas cometemos esse erro muitas vezes. Epicuro dizia que a principal tarefa humana é identificar o que controlamos pra poder agir sobre isso. Nossa mente passa a maior parte do tempo divagando entre o passado e o futuro. Essa é uma ideia um tanto quanto trágica: aproveitamos muito pouco do momento em que as mudanças de fato acontecem: agora.
Por outro lado, gastar energia se preocupando com coisas as quais podemos mudar através da ação pode vir do fato de que não temos a confiança necessária para agir, ou motivação. Além do fato de que é muito mais cômodo ficar imaginando do que agir. No pensamento não há tantas frustrações como na vida real. Esse fenômeno psicológico se chama viés de competência: nós ficamos imaginando cenas triunfantes, e a ansiedade da ação nos inibe, pois o mundo não corresponde às nossas simulações mentais. 19 Na prática, no mundo real, a frustração é inevitável, o mundo não perdoa nossas ilusões de competência.
Também pode ocorrer fenômeno contrário, quando exageramos em futuros negativos, criando cenários que ultrapassam muito aquilo que realmente acaba acontecendo. Projetamos catástrofes que quase nunca ocorrem. Você sabe muito bem do que estou falando. Preocupamo-nos demais. Nesse ponto, nossa capacidade de simular eventos futuros acaba nos traindo, e nos colocando na armadilha do medo e da ansiedade. Por que sofremos exageradamente pelos desafios que podemos enfrentar e usar para nosso crescimento?
Por que tantas pessoas têm medo de enfrentar desafios, se os desafios são os melhores indicadores de que elas estão se desenvolvendo? A resposta é bem complexa, mas já há algumas evidencias empíricas bem consolidadas. Precisamos de uma mentalidade de crescimento (Growth mindset), algo que não se aprende na escola e poucos pais ensinam. Esse tipo de mentalidade foca em perguntas do tipo: o que posso aprender com isso? Como essa dificuldade poderia me beneficiar? Estou me esforçando o bastante? Como posso enfrentar e vencer isso? 20 Veja que todas essas perguntas não dizem respeito a características inatas da pessoa, mas sim ao seu modo de pensar e a sua estratégia de enfrentamento. Portanto, vale muito a pena trabalhar a sua visão de desafios, de problemas, de sofrimentos e dificuldades. Uma perspectiva de olhar para o passado para aprender (e não para remoer mágoas) é extremamente enriquecedora, e fará com que você sofra menos, ou de uma maneira mais funcional. Viktor Frankl, autor do livro “Em busca de sentido” ,é psicólogo e sobrevivente do campo de concentração nazista. Ele é o fundador de um tipo de terapia (logoterapia) baseada na busca de sentido da vida. Sua teoria afirma que as pessoas que encaravam seu sofrimento como algo “sem sentido” ou “injusto” tinham a tendência de não sobreviver muito tempo os horrores da guerra. Por outro lado, os que conseguiam dar sentido ao sofrimento conseguiam continuar se mantendo vivos e lúcidos por mais tempo. Por quê? ]Porque se mantinham ligados a algo maior e mais forte do que eles.
[our_team image=”https://ajuricaba.com/wp-content/uploads/2019/01/Jean-Bertollo-sobre.jpg” email=” jeann1984@hotmail.com” phone=”(055) 9-9147-8099″ style=”vertical”]Jean Alessandro Bertollo nasceu em 1990, formou-se em Psicologia pela Unijuí em 2018, concurseiro e amante dos estudos. Interessado em comportamento humano, psicologia aplicada ao trabalho e gestão e aprimoramento pessoal, aprendizagem e cognição. Escreve semanalmente para Folha de Ajuricaba, Jornal Ramadense e Ajuricaba.com
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