Artigo – Jean Bertollo: Por que é tão difícil mudar um comportamento?

O universo conspira ao seu desfavor quando você quer mudar algo. Comportamentos e crenças são sistemas complexos multideterminados, com influência de inúmeras variáveis. Somos projetados para economizar energia, tanto física quanto mental.
Mesmo tendo somente 2% da massa do nosso corpo, o cérebro consome quase 25% da nossa energia. Já era de se esperar que um sistema tão complexo, que contém mais ligações do que os átomos da nossa galáxia, encontrasse formas de simplificar seu funcionamento. Nossa evolução teve de preparar-nos para economizar tempo, energia, e espaço de “armazenamento”. Então, um dos maiores aliados do cérebro e do comportamento são os hábitos.
Nos primeiros dias de uma nova atividade, imensas quantidades de energia, de estresse e de ansiedade são descarregadas. Sentimentos de desamparo e insegurança são fortes, temos medo da desintegração de nossa vida como estamos habituados. Nessa fase é que muitas pessoas desistem da mudança, por não ter conhecimento de como o processo funciona, por não saber que essa fase de tormenta é extremamente normal e saudável. Se nossa mente não procurasse tal inéricia, nossa vida seria impraticável. Sistemas, rotinas, hábitos são caminhos pelos quais a vida se possibilita. Especialmente quando estávamos na savana prestes a sermos mortos a qualquer segundo.
Temos uma propensão fisiológica à adaptação. Esse processo é conhecido como adaptação hedônica. A famosa frase popular de que o ser humano se acostuma com tudo é bastante validada empiricamente pelas ciências cognitivas, comportamentais e neurológicas.
Além disso, nosso sistema de percepção e cognição gosta muito de congruência. Sempre que você adicionar algo que não corresponde ao que já está estabelecido você terá algum nível de resistência. Por exemplo, se você acredita em alguma coisa e alguém questiona suas crenças você fica muito chateado e suas emoções ficam bagunçadas por um tempo. Até que você ou (1 ) mude o modo como pensa ou (2) rejeite totalmente a ideia que contestou suas crenças. Mas então como podemos fazer para mudar?
1- Entender como funcionamos é a base para partir pra um planejamento. O plano deve ser realista, mensurável, específico, partir do menor para o mais complexo – levando em conta o processo psicológico de motivação humana. Muitas pessoas tentam atacar o hábito pela sua rotina. “Nunca mais vou fazer isso”. Sem uma estratégia e um conhecimento profundo de si mesmo, essa abordagem vai ser somente algo que vai te deixar mais frustado(a).
Isso é o que as propagandas contra fumo fazem: elas tentam informar sobre a negatividade da rotina do fumante. Mas de que adianta isso? Pesquisas mostram que na verdade, quando o sujeito vê uma propagando assim, o que acontece realmente é que a vontade de fumar aumenta, em vez de diminuir. A rotina de um hábito é extremamente reforçadora, é quase impossível quebrar um hábito pela rotina. É por isso que você não consegue largar seu celular. Ao invés disso, o que os pesquisadores encontraram nas pessoas que conseguiram modificar hábitos bastante profundos é a abordagem de mudar os gatilhos que levam à rotina (sumir com seu celular de perto). Como fazer isso? Planejando o ambiente previamente.
Usando o mesmo exemplo, por mais que o fumante queria parar, e acredite fielmente que vá, se ele for exposto ao cheiro, a fotos, imagens ou a pessoas fumando, certamente sua força de vontade vai ir para o ralo em questão de segundos. É muito mais inteligente planejaras situações para que você não encontre com o objeto de sua tentação do que ficar remando contra a maré. E nossas marés costumar ser grandes tempestades.
Outro erro comum é esperar pela vontade. Entendendo aqui vontade como uma inclinação natural e sem esforços para algo. Isso definitivamente não vai acontecer no início de um processo de mudança. É verdade que algumas pessoas acabam sentido vontade de manter seus hábitos saudáveis, mas isso acaba acontecendo depois de muito tempo, quando o hábito novo já está mais forte do que o hábito antigo que foi substituído.
Esperar pela vontade é um baita tiro no pé. Provavelmente depois que a nova rotina vai se instalando, a vontade também vai aparecendo, mas é preciso uma postura firme e comprometimento para poder chegar até esse nível. Certa dose de força de caráter – e não força de vontade – é necessária. O que quero dizer com força de caráter, nesse caso, é que a pessoa firma compromisso e vai mesmo extremamente sem vontade.
A grande questão é saber que a jornada de mudar alguma coisa importante não é fácil como muita gente prega. É um processo difícil, demorado, complexo. Leva tempo, exige esforço, autoconhecimento, estratégia. Mas, a boa notícia é que isso é assim pra todos, no entanto temos aí grandes obras, feitos e trabalhos, todos feitos por pessoas – humanos – como nós, com as mesmas limitações, com as mesmas forças gravitacionais puxando para a lama, mas que nem por isso deixaram o que precisava ser feito por conta das dificuldades implicadas.
Também precisamos achar a motivação certa; precisamos saber o que sabota nosso autocontrole; precisamos ter em mente nosso temperamento, nosso ambiente social, nossos recursos. Desconfiar de respostas fáceis pra problemas complexos já é um bom começo, definir uma boa estratégia e ser honesto com si mesmo também são partes fundamentais da mudança.
[our_team image=”https://ajuricaba.com/wp-content/uploads/2019/01/Jean-Bertollo-sobre.jpg” email=” jeann1984@hotmail.com” phone=”(055) 9-9147-8099″ style=”vertical”]Jean Alessandro Bertollo nasceu em 1990, formou-se em Psicologia pela Unijuí em 2018, concurseiro e amante dos estudos. Interessado em comportamento humano, psicologia aplicada ao trabalho e gestão e aprimoramento pessoal, aprendizagem e cognição. Escreve semanalmente para Folha de Ajuricaba, Jornal Ramadense e Ajuricaba.com
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