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Artigo: Sobre os tempos de incerteza

É um sentimento comum de que tudo está acelerado e caminha para um destino incerto. Todavia, não era esse sentimento que perdurou por milênios na humanidade.

Desde que o ser humano começou a povoar a terra, houve mudanças significativas que interferiram na forma de ver e de agir no mundo. As descobertas do fogo, da roda, dos instrumentos de ferro, modificaram a realidade e fizeram o dia-a-dia ganhar outros contornos. Mas foram mudanças lentas e demoraram centenas de anos e até milênios para acontecer.

Mas, de onde vem esse sentimento atual de que há uma aceleração no tempo em curto período, a ponto da constituição bio-psíquica sentir-se angustiada por não dar conta de tanto influxo de informação que exige rapidez na tarefa de decidir e agir?

A aceleração do tempo se dá por diversos motivos. Um deles é a mudança tecnológica.

Com a invenção do motor à combustão e da luz elétrica, o trabalho e a vida não somente aumentaram, mas também aumentou a velocidade da produtividade em um nível incomparavelmente superior. Novas áreas do conhecimento tiveram de surgir. Uma dessas áreas foi a administração científica, cuja finalidade era aumentar a eficiência e a produtividade humana para acompanhar as novas descobertas científico-tecnológicas.

Com alta capacidade de produção, a indústria teve de apostar no escoamento a partir da elevação do consumo. Os produtos, assim, não deveriam apenas satisfazer uma necessidade cotidiana: comer, vestir, facilitar uma ação (eletrodomésticos), mas saciar um sentimento quanto à existência, para ser ‘exatamente isso que o consumidor procurava para ser feliz’. Logo, as campanhas publicitárias se tornaram não mais opção, mas condição de sobrevivência dos produtos vendidos e a marca um símbolo de ‘quem a pessoa é e da capacidade de consumo que ela tem’. Dependendo da marca que ela usar, será valorizada ou desprezada na sociedade dos consumidores. Para acelerar ainda mais o escoamento da produção, outras táticas empregadas foram a moda e o lançamento dos novos modelos de um mesmo produto. Quem quiser estar atualizado, precisa ir às compras! Tal situação cria uma moral classificatória entre os que estão atualizados e os que estão desatualizados e o sentimento correspondente de orgulho pessoal ou vergonha.

A capacidade produtiva aumentando devido à mecanização da produção, no outro lado da moeda havia uma massa de trabalhadores tendo de procurar outra ocupação, abrindo seu próprio negócio ou se especializando em uma nova área. O novo cenário de crescimento da mão-de-obra ociosa e a diminuição das oportunidades de emprego, exige-se cada vez mais uma qualificação constante. Deu-se, por esse caminho, a competição pelo melhor currículo a fim de ganhar um espaço no mercado de trabalho.

O tripé tecnologia-produção-consumo cria um estado de incerteza para o trabalhador que terá como única defesa e segurança as leis do Estado, os sindicatos e cooperativas de metodologia democrática-participativa.

Tendo de se qualificar, vendo o outro como um competidor na hora de procurar um emprego ou aquele que vai suscitar orgulho pessoal ou vergonha, juntando à demanda de um tempo acelerado e exigente quanto às decisões rápidas e eficazes, desfaz-se os laços de solidariedade, de partilha e de convivência.

Se existir uma saída, certamente é a recomposição dos laços sociais pela via do pertencimento comunitário, a ética do bem comum em forma de reação à sociedade dos indivíduos conhecida pelo nome de neoliberalismo.

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